Poema curto
Meu poema é curto e grosso
O amor também
Pra quem ama infinitamente
Na vida o mais importante é o desejo, é o oxigênio das realizações. a imagem de colher a flor sempre me marcou. A flor é, e deve ser, sempre intocável, linda e viva. Sempre amei as Camélias, elas me ensinaram que a sensibilidade é algo para ser sentido e perseguido a todo momento. Não colha a flor, alimente-a, regue, reze por ela, deseje-a, faça disso uma regra, e se possível use-a para os homens!
Alegre por ser triste
Isso mesmo! Eu estou alegre por ser triste: o triste se conhece melhor, tem mais cuidado consigo menos, a inspiração vem com a respiração, não briga por qualquer coisa, ele é mais cuidadoso com o próximo, quieto e educado. O triste tem espaço no mundo, principalmente das artes. Seja um triste feliz e, quando estiver feliz, serás bem mais feliz que o resto do mundo.
O susto
O susto chegou, como sempre, assustado
O susto vive solitário
Ninguém quer vê-lo e conversar
Um belo dia um doido chegou
Apertou a mão do susto
O susto se assustou
O doido varrido perguntou
"Você tem medo de mim?"
O susto disse que não
E assim nasceu uma grande amizade
Do susto e do doido vivem
O alpinista, trapezista, paraquedista
Até que a morte os separem
Doido varrido
Sou doido varrido em poesias
Poesias desconexas e soltas
Escrevo de trás pra frente
Poemas que Salvador Dali vai entender
O Fernando pessoa vai achar a impessoal
Vinícius ficará bêbado sem beber
O Bandeira vai dar bandeira
Meus versos não são conexos
Vão bater na parede de teu coração
Não vai trazer emoção
Se você chorar
Pode se internar
Vou vender minha alma pro diabo
A proposta é tentadora, o vendedor nem tanto
Botei meu preço, grande e salgado como o mar
Ele cresceu o olho, fez contra oferta
Bati o pé firme, é pegar ou largar
O diabo é que o diabo ficou de pensar
Amar
Amar é:
Dividir o indivisível
Acreditar no impossível
Falar com gestos
Ser duro e gentil
Ser puro no impuro
Pecar sem pecados
Cumplicidade
Flutuar juntos
Na dor e no amor
Diferentes
Somos tão diferentes por sobrevivência
Ser igual é quase pecado mortal
Dizer sim no lugar do não faz bem
Dizer não no lugar do sim, mais ainda
Agora esbarro no meu eu nu
Sou diferente do que sou?
Sou o que posso ser?
Ou sou o que imagino ser?
Difícil resolver a equação: sou igual ou diferente?
De mim mesmo?
Pereirinha
Minhas viagens ao nordeste vão além da visita aos familiares e apoio ao Lula (se eu disser que não gosto dele eu vou ser castrado de gaveta).
A tempo: antigamente, os coronéis do interior tinham esse sistema de castração, moderno, simples e rápido. O sujeito colocava os "possuídos" do condenado dentro de uma gaveta de um armário pesado e antigo, com um golpe seco e certeiro terás o sujeito falando fino pro resto da vida.
Voltemos ao Pereirinha. Os "causos" são a melhor fatia do bolo: minha cunhada tem uma amiga (Cláudia) que ganhou um papagaio 🦜. O bichinho chegou pequeno, foi crescendo e aprendendo a falar:
- Cláudia qué café
Todos adoravam o papagaio, a alegria da casa
- Pereirinha, o que Cláudia quer?
- Cláudia qué café ☕
O tempo passou e Pereirinha cresceu, ficou adulto. Um belo dia, após uma semana de silêncio do Pereirinha, a Cláudia foi fazer uma limpeza na gaiola, e... Pereirinha tinha colocado 2 ovos!!!!😄
Vida que segue, Pereirinha aprendeu a falar:
- O que Pereirinha quer?
- Pereirinha qué batom e Cláudia qué café ☕
Estrada da
Minha estrada da vida era asfaltada
Bem sinalizada e prazerosa
Como eu deslizava na pista
Curvas perfeitas, segurança total
Um belo dia o asfalto sumiu
Chuva e lama eu derrapei
O carro não obedecia
Tudo ficou difícil e lento
Não sabia mais para onde ir
Fui seguindo por instinto
Sofrendo e seguindo em frente
Meu pai morreu
Pedra assentada
Nosso amor é pedra assentada,
pedra pesada e concretada.
Não é passível de demolição.
É pedra de sentimentos puros,
tão sólida quanto pecados impuros,
pedra sobre pedra, grudada
como nas pirâmides do Egito.
O maior inimigo
Teu maior inimigo é você mesmo
Dentro de ti mora um lobo
Ele uiva na dor e no amor
Se alimenta de inveja e ciúmes
Seu dentes afiados mordem
A tua alma grita
Pede socorro
E o mundo desaba
O beijo roubado
O beijo roubado não merece pena
Tenho pena de quem nunca o provou
É o beijo que tem mistura
Meio ingênuo, meio maldoso
Mas, sobretudo, gostoso
Morrer de amor
Morrer de amor é morte homeopática
A dor vem calejada e diária
Uma sensação de frio invade o coração
Você vai morrer continuadamente
De uma dor que ninguém sente
Que apavora a mente
Dor de amor doente
Quando a chuva chora
A chuva tem sentimentos e chora
Um choro lento, afogado em mágoas
Por isso a chuva não para
É a chuva triste, encharcada de dor
Chuva não de vento
Chuva de amor
Mulher, você ama demais
Mulher, você ama demais
Esse é o seu pecado
Amor abundante, deslumbrante
Amor demais pode matar
Amor demais pode marcar
Amor demais vai transformar
Sim, meu coração vagabundo
A minha incapacidade de amar
A minha cegueira
Perdoa-me
Perdidamente, perdoa-me
Meu pecado é não saber amar
Mulher, você ama demais
Queria ser
Eu queria ser um Neruda
com um pouquinho de Vinicius.
Não dar tanta Bandeira
como o Manuel.
Talvez recatado
como o Drummond,
e filho do Carlos, que Pena.
Ser gentil na Quintana
do Mário,
e da Dolores ter
a paz de criança dormindo.
Queria tanto ser poeta
e saber do amor falar
e, quem sabe,
te enganar.
Rua da certeza absoluta
Tenho certeza absoluta que ela existe
Na rua da certeza absoluta só mora gente chata
Pessoas tão certas que não há conversa
Todos sabem demais
Lá mora o dono da verdade
Num casarão imenso, sem cor
Muita gente tenta falar com ele
Mas, tenho certeza absoluta que ele é mudo
Rua da amizade
Na rua da amizade os vizinhos se entendem
Não há discussão, só apertos de mão
A rua da concórdia fica ao lado
As pessoas se abraçam permanentemente
Há sorriso, mesmo nos dias nublados
Meu maior amigo mora lá
Casa número dez, ao lado da igreja
São Cosme e Damião
Rua do esquecimento
A rua do esquecimento existe, esqueci onde fica
Lá as pessoas vão esquecer
Não tem sonho na padaria, tem apagão
Nas esquinas são curvas e confusas
O lado direito é igual ao esquerdo
O começo se confunde com o fim
O melhor mesmo é esquecer
Até mesmo que ela existe
Pedra poesia
A pedra poesia pesa e penetra
Percorrendo percalços
Praticando palavras
Por procurar
Amor
O trabalho do poeta
O trabalho do poeta é decifrar o indecifrável
Ver um oceano no pingo d'água
Amar tanto até sentir falta de ar
Escrever sentimentos no papel branco
Ler pra si próprio e não acreditar
O poeta nada no ar
Corre no mar
E, sobretudo
Não sabe amar
Sniper
Cupido é um sniper, quando atira é pra matar
Assim foi o teu olhar certeiro
Com o balançar dos cabelos
Armou a carabina...
Pouuuuu
E fui ferido
Tentei reagir
E, ao respirar
Por ti fui me apaixonar
O túnel do tempo
O túnel do tempo fica na estrada da vida
Lá tem o viaduto do amor
A curva da felicidade: curta e perigosa
Atenção: obra na pista
Tapando buracos das decepções
Curvas escorregadias na frente
Amores não correspondidos
No pedágio você vai pagar um preço
A moeda é tua coragem
Boa viagem!
A ampulheta do amor
Na ampulheta do amor os carinhos vão descendo
Como areia escorrendo suavemente
Não vire a ampulheta não
Acumule sentimentos bons
A ampulheta do amor tem valor
Esqueça o tempo
O objetivo é outro
Amar cada vez mais
Chove lá fora
Chove lá fora e aqui dentro o coração chora
São águas e lágrimas derramadas
A chuva alimenta árvores e flores
As lágrimas, a minha solidão
Quando a chuva parar vou te ligar
Talvez sua voz venha aplacar a dor
Talvez aumentar a chuva
Talvez chamar o Sol
E com o Sol a SOLidão saia do meu coração
Os olhos do índio vêm mais
Sabem da árvore
Dos pássaros
Bebem a natureza
Com tal pureza
Que só nos resta admirar
Foto de Luis Bhering
Três irmãos
São três irmãos: Sentimento, Razão e Paixão
Sentimento é amoroso e passional
Razão tudo mede tudo pesa, pondera
Paixão é explosão!
Não se entendem
Sentimento com Razão mal se falam
Sentimento com paixão é só emoção
Uma coisa é certa: Paixão não é mole não!
Cresceram e foram felizes
Sentimento sem razão
Razão sem emoção
Paixão, essa morreu cedo
De paixão
O amor maduro
O amor maduro é diferente
Não mais se alimenta de ciúmes
Não teme a perda da amada
Não sucumbe às dúvidas
Ele respira mais calmamente
Ele sabe reconhecer a paz
Ele pode até amar mais
O amor maduro não é impuro
E, eu até juro, ele é maior
O mais distraído
Meu pai tinha um tio que era o mais distraído da família. Tio Chico era muito inteligente e chegou a ser presidente da Caixa Econômica, isso há muitos anos atrás. Morava em São Paulo.
Certa vez foi visitar a família no interior de Pernambuco. O carro quebrou na estrada barrenta e ele, com um primo, foi socorrido por um caminhoneiro. Tio Chico sentou-se do lado do motorista e o primo na janela.
Chico era engraçado e contador de histórias. O primo ria muito, o motorista não. Segue a viagem e nada do motorista rir, pelo contrário, cada vez mais de cara fechada.
Tio Chico perguntou: "O que há com você? Emburrado, não está gostando da nossa companhia?"
O motorista desabafou: "Doutor, o senhor não para de passar a mão na minha perna..."
Tio Chico disse: "Vixe, é por isso que a minha coceira não passava!"
A viagem seguiu com a alegria de todos, do motorista antes emburrado, do primo risonho e do tio mais distraído do mundo! Tio Chico.
A beleza é uma armadilha
Sim, a beleza é uma armadilha pois ela abre portas e facilita a vida, com isso é o alimento da preguiça. A pessoa bonita por fora pode ser feia por dentro (poucas qualidades) e terá o caminho mais fácil: os predadores vão ajudar. Depois vem o preço (não existe almoço grátis e, principalmente, sobremesa). Já o feio tem, por questão de sobrevivência, que olhar pra dentro e lapidar suas qualidades. O feio estuda mais, é mais simpático, tem inteligência emocional, e vai ter sucesso na maratona chamada de vida. Voltemos ao Belo (não ao cantor) e sim a quem é bonito(a) e a chance de se dar mal na vida: em primeiro lugar a vaidade é venenosa, um veneno que você fabrica e você toma. Cuidado! O mundo não para enquanto você se admira no espelho, e as oportunidades passam. Quem é muito bonito tem que desconfiar da própria beleza e saber que ela vai morrer antes de você. Triste não é? Suas pernas vão ter varizes, teu rosto murchar, os lábios carnudos serão linha de tricô (aprenda a fazer, por favor), e os predadores vão sumir. Você já pensou nisso, ou não te interessa o amanhã? Então pense bastante pois o futuro de gente bonita é mais triste que o de gente feia.
O que os olhos não veem, o coração não sente.
O que o coração sente, os olhos choram.
Os olhos escutam mais que o coração.
O coração, tadinho, sente quando o amor está ausente.
O coração, mesmo sem olhos, vê mais que você -
que é cega de amor.
Então sofra na escuridão.
Domingo pede cachimbo
Pede calma pra quem trabalha
Pede paciência pra família
Pede cerveja pra alma
Pede cachaça pra dor
O domingo é um pidão
Pede tudo e implora pra ficar
Com cachimbo ou sem cachimbo
O domingo é domingo
Roberto Solano Novaes
A porta
A porta que entra é a mesma que sai
A porta que se abre também bate na sua cara
A porta aporta tantos caminhos
A porta também emperra
A porta é muda ou grita
A porta é quase gente
Grande ou pequena nunca se livrará dela
Tempo de
Tempo de dar tempo ao tempo
Tempo de ganhar tempo
Tempo de temperança
Tempo de não ter tempo
Tempo do tempo perdido
E o tempo não tem mais tempo
Nascendo e morrendo todo tempo
Dizer que te amo
Queria dizer que te amo
Não da boca pra fora
Do coração pra dentro
Não com flores nas mãos
E sim passeando na tua emoção
Não com promessas eternas
Sim com a certeza do amanhã
Dizer sem dizer
Telepaticamente