Rua do desespero
No bairro dos aflitos existe a rua do desespero
Lá moram infelizes criaturas
Tem hospício
Uma farmácia de ansiolíticos
Um poste com uma foto "procura-se"
Um jovem que fugiu
Era feliz
Na vida o mais importante é o desejo, é o oxigênio das realizações. a imagem de colher a flor sempre me marcou. A flor é, e deve ser, sempre intocável, linda e viva. Sempre amei as Camélias, elas me ensinaram que a sensibilidade é algo para ser sentido e perseguido a todo momento. Não colha a flor, alimente-a, regue, reze por ela, deseje-a, faça disso uma regra, e se possível use-a para os homens!
Rua do desespero
No bairro dos aflitos existe a rua do desespero
Lá moram infelizes criaturas
Tem hospício
Uma farmácia de ansiolíticos
Um poste com uma foto "procura-se"
Um jovem que fugiu
Era feliz
Da série Ruas: rua da vida eterna
Essa rua é sem registro, sem mapa
Dizem que existe
É desejada por todos
Os que lá foram não voltaram
Os que a procuram são incontáveis
Os Correios não entregam cartas
Ela existe sim, do lado da rua do desejo
É imensa, infinitamente cumprida
Rua da vida eterna, cheia de ilusões
A cada esquina um Deus
Em cada casa um santo
Amém
Da série Ruas
Rua da discórdia
Depois da praça da Concórdia
Uns dizem que fica à direita
Outros à esquerda
Discordando
Lá moram, vizinhos, petistas e Bolsonaristas
Corintianos e Palmeirenses
Flamenguistas e vascaínos
Não há acordo
As discussões são normais e frequentes
Não há fofoca pois não é necessário!
Todos discordam automaticamente
Fui lá pra nunca mais voltar
Fui expulso pois era um chato
Pois era neutro 😐
Eu amava te amar
Derramar meu amor
Sobre ti pra te sentir
Amava tanto amar a ti
De tanto amar descobri
Que o meu amor não cabe em ti
Trazendo
Os novos casais, quando querem ter filhos, optam por um só: há um epidemia de filhos únicos, e por consequência, essas crianças não terão irmãos. Isso é muito danoso para a formação do caráter do indivíduo, pois é com teu irmão (ã) que aprendes, dentro de casa, a dividir, a brigar e conciliar, a ter paciência (mesmo que pouca), a lidar com as adversidades do relacionamento humano. Então, caso o casal tenha um só filho, procure educar com orientação para não criar um péssimo cidadão no futuro.
Prego
Quero falar do prego, sem esquecer o martelo
Os pregos são tantos: com cabeça, sem cabeça
Nunca vi um prego desmiolado...
Tem até o prego asa de mosca
Todos são o elo da história da engenharia
Eles fazem a mágica da união
Simples, fáceis de usar, um sujeito simpático
Ele merece respeito! Não pise nele
Até Cristo esteve com ele...
Nas mãos dos carpinteiros é obra
Nas mãos dos marceneiros é arte
Só não se esqueçam do martelo
O casamento perfeito.
Destilando ódio
Da cana dura extrai o veneno
No alambique da inveja a mistura
Traição com falta de caráter
Uma pitada de desamor
Teu retrato picado em mil pedaços
Tudo conservado em barril enferrujado
10 anos de envelhecimento
E agora um gole de ódio puro
Em tua homenagem!
Tubarão branco
Não quero ser o tubarão branco do seu mar de rosas
Não quero ver sua alegria extasiante
Sua felicidade ao lado do Netuno
Seu novo amor em seus braços de sereia
Me poupe de vê-la ornada de pérolas
Linda demais
Não quero ser o tubarão branco no seu mar de rosas
O caranguejo
Fui no IA perguntar o que é caranguejo
Caranguejo é um crustáceo decápode
encontrado em ambientes marinhos
Fui na obra perguntar ao mestre de obras
Doutor, aqui na obra esse bicho é que segura o ferro
Valente que só! Sem ele o negativo se lasca
Bicho bom
Perguntei se podia armar uma laje sem ele
A resposta veio curta e grossa:
O doutor está doido?
Fui tomar uma cerveja gelada comendo um caranguejo 🦀
Entrevista
Você tem autoestima?
Não, só automóvel velho
Amor próprio?
Não, vendi
Empatia?
Não sei o que isso significa...
Gosta de desafios?
Morro de medo
Pós graduação?
Posso responder depois?
Pretensão salarial
Pretensão eu tenho, salarial é o que pintar
Qual sua maior ambição?
Ser político, de preferência do PT
Se acha capaz?
Se Janja conseguiu...
O interfone
O interfone tocou
Alô, bom dia, sua consciência está aqui
O porteiro avisou...
Diz pra ela voltar outro dia
Trimm, trimm, trimm
Doutor, ela insiste em falar com o senhor
Diz que estou doente...
Trimm, trimm, trimm
Ela disse que é mentira!
Saco! Manda subir.
Na minha porta uma descabelada
Pensei "minha consciência nunca foi atraente"
No sofá ela me cobrou: você não vive sem mim
Eu? Sempre vivi, sem culpa e feliz
Ela sorriu e disse:"sua alegria acabou"
Hoje moro com a minha consciência pesada
Ela engordou
Eu emagreci
Como um agricultor
Fazendo poesia como um agricultor eu cavo a inspiração
Removendo os sentimentos na memória barrenta
Procurando minha mãe como um louco
Adubando minhas dores como Dolores Duran
No clarão da manhã buscando chuva
No entardecer buscando amores
Agricultor de terra árida e poeta sem sentimentos
Eu sou
O calculista apaixonado
Na gaveta do passado fui procurar a coisa certa
Quanto mais vasculhava mais me desesperava
O pó velho adentrando as narinas do esquecimento
As mãos trêmulas no tato falho, e nada se acha
Lá dentro brotam papéis em branco e dúvidas
Eu não acho o passado tão bem guardado
Eu não entendo o presente aqui do meu lado
A gaveta do esquecimento engoliu a do passado
E
Apodreceu a do presente
O sonho do engenheiro
Era domingo depois do almoço ele adormeceu
O fatigado engenheiro descansa, merecidamente
O sonho veio rápido e tecnicolor
A fundação da obra era de areia clara e limpa
A água do lençol freático tinha uma válvula pra fechar
Seu bravo mestre de obras tinha uma lâmpada, aceitava pedidos
Seu projetista enviava os projetos em um estalar de dedos
O concreto era moldado na mão, como massa infantil
O aço nascia dentro, simplesmente o necessário
A cura era em uma consequência natural
Estrutura de pé!
As instalações, os revestimentos, vinham em nuvens
O gênio da lâmpada (mestre de obras) providenciava
O prazo de execução não existia
Só o prazer de fazer e criar
Trimm, trimm, trimm
O telefone tocou
Era o dono da obra...
"Amanhã teremos uma reunião bem cedo na obra sobre seus atrasos"
E o sonho virou pesadelo.
Visão turva
Com minha visão turva te vi como um Rio
Eras o mar
Uns amigos retos
Eram tortos
A esperança verde
Amarela ficou
Meu desejo aceso
Fósforo riscado
A vida simples
E
Simplesmente não é
Descanso e paz
O Descanso encontrou a Paz
Ela é linda, cabelos soltos, serena
Ele calmo e calvo, tranquilo demais
A conversa começou lenta
Foi evoluindo na sinfonia do tempo
E o tempo parou
Um enorme silêncio se deu
Uma voz anunciou:
"Descanse em paz"
Quando o silêncio fala
Em momentos de dor
Há hora de só observar
Um abraço, um aperto no coração
A garganta fecha sem voz
As palavras são inúteis
Nesse momento o silêncio fala
E uma lágrima corre
Pro chão
Dizer não
O melhor da vida é dizer não
Não quero, não faço, não vou
É a liberdade saindo da boca
É poder e prazer
O não bem dado é educativo
A delícia da negação é maior
Sem preocupação nem arrependimento
O não é o melhor dessa vida
Casal siamês
Ela viu ele e ele a viu, algo diferente aconteceu, uma atração inexplicável se deu, na mesa só os olhares dos outros circulavam, ela vidrada nele e ele nela. Apresentações feitas e o convite para ver a lua na praia, um beijo se deu, beijo super bonder, horas ali, grudados. O casamento foi rápido e todos ficaram impressionados com a forma de viver, como eles sempre estavam juntos! Uma loucura. A vida seguiu em frente e abriram escritório juntos, advogados competentes, ficaram ricos. A casa deles era curiosa: o banheiro tinha tudo dobrado, duas pias, dois vasos sanitários, tudo lado a lado. Escovam os dentes juntos e o número dois de mãos dadas. Banho sempre lavando um as costas do outro, lindo! Comida igual, só uma vez brigaram pois ela colocava o arroz por cima do feijão e ele não, briga feia, o pastor da igreja resolveu: mistura os dois. A paz voltou. Agora ela engravidou de gêmeos ( graças a Deus) e vão poder trocar fraldas juntos. O amor é lindo e o casal siamês é muito mais que lindo, é insuportavelmente lindo.
A gestação do concreto
A pedra, a areia, o cimento e a água
Essa mistura se dá no útero da usina
Ou, sobre uma superfície plana
Enxada ou máquina
União
Depois ele vai sendo derramado nas formas
O parto é dolorido, um vibrador ajuda
Na sala de parto o pedreiro e o engenheiro
Nasceu! E é menino, grita o mestre de obras
Agora é cuidar do nenê
Molhar, molhar, molhar
No dia seguinte vem o pai engenheiro
Olha, com orgulho a criança
Agora é esperar crescer na resistência
Sim, o concreto já nasce trabalhando
No sétimo dia vem o batizado
Lá no corpo de prova se dá o nome
Bom! Positivo! Ou negativo
A família obra acompanha e desenvolvimento
O trabalho continua e outros irmãos vão nascendo
Agora é a prova final do vestibular
Aos 28 dias ele ganha vida própria
E vai construir prédios, casas e pontes
E fazer a engenharia sorrir.
O engaste
O engaste é Zeus do olimpo da engenharia
Ele tudo pode, absorve todos os esforços
Imexível
Um buraco negro das forças
Suga cargas verticais, horizontais, momentos e torção
Um verdadeiro leão.
Atenção! O engaste precisa ser bem avaliado
Não se engane não
O engaste não é pra qualquer um não!
A rótula
A rótula não é só a mulher do rótulo
Ela é muito mais!
Firme e adaptável
Do joelho às pontes
Poderosa
A rótula, por vezes, fica escondida
Esmagada sob pilares
Em forma de dente nas vigas
Ela é quem dá vida aos movimentos
Bailarina por natureza
Poderosa
O rótulo é um chato, amostrado
A rótula é, como Ataulfo Alves cantou
Uma mulher de verdade!
O muro
Nua e crua se banhando no Rio
Do outro lado a mentira elegantemente vestida
As duas raramente se encontram
E brigam muito
A verdade é linda
A mentira encantadora
Odete Roitman é melhor que as duas
A grelha
Eu sou um conjunto de vigas abraçadas
Ligadas umas às outras, amigas
Vencemos os vãos com leveza
Somos a opção divertida da laje
Brincamos nas duas direções
A grelha é linda e geométrica
Geométrica e linda
A Giselle Bündchen das estruturas.
Estrutura aporticada
Atropelando o tempo
O ansioso segue atropelando o tempo
Não freia, acelera, na angústia infinita
Sempre sem o presente
Mordendo o futuro como cão faminto
O ansioso morre de fome com barriga cheia
Se engasga com água, lhe falta o ar
É o único que não vai viver
Vai morrer sem saber pra que veio
No eterno ofício de atropelar o tempo
Prece pela saúde mental
Rezo pelo entendimento do homem com o homem
Do pensamento positivo no erro e no desespero
Que o bom humor esteja presente na terra como no céu
O pão nosso de cada dia mate a fome e a ansiedade
Oremos pela calma, na dor, pela fé no dissabor
E pela serenidade da alma e da emoção
Amém
A foto
A foto morreu. A fot
Isostático e hiperestático
A delicadeza da flor
A delicadeza da flor não cabe no poema
Transborda
Tão pouco no quadro do artista
Inunda
Menos ainda na pureza da flauta
Voa
A delicadeza da flor é inimitável, única
Incomparável
A vida e a viga
A vida é feita de momentos
A viga é feita de momentos
Momentos positivos e negativos
Sempre em busca de um apoio
Sofrendo com os cortantes
Se deformando a todo momento
A viga
A vida
É feita de momentos
A Fissura é uma menina trelosa
Onde tem concreto ela aparece
Às vezes escondida
Outras vezes descarada
A Fissura tem o dom de apavorar
Uma Wandinha da engenharia
Ninguém gosta dela, tadinha
Se cresce é um horror!
A Fissura também é moça de recado
Quando ela aparece tem algo errado
Será?
A Fissura é menina trelosa
Isso ninguém pode negar!
O Tirante é um sujeito elegante
Sempre reto e correto
Simples e objetivo: leva a carga de ponta a ponta
Admirável criatura da engenharia estrutural
Por vezes esquecido ou escondido
Um pena...
Sua irmã Biela é complicada e temperamental
Os dois fazem uma dupla fantástica!
Quase tudo se explica com Biela e Tirante
Seu irmão, pilar esbelto, é um chato!
Por qualquer coisa fica torto, um perigo
Mas os arquitetos o amam...
O Tirante não gosta de ser chamado de diagonal tracionada!
Coisa indelicada
Eu admiro o Tirante
Simplicidade e objetividade
Um grande cidadão!
Pitoco
Pitoco é um cachorro
Magro e tímido
Ele ama o sol
Na janela o admira
Pitoco sonha na janela
Um dia poder voar
Um dia perto do sol
Chegar
Anjo mau
O anjo mau é irmão do bom
Estagiário do diabo
Ele está do seu lado
Cuidado
Teu anjo da guarda não pode cochilar
Um descuido e o anjo mau ataca
Hacker de suas novas idéias
Amante de aventuras e traição
Mau por vocação celeste
Fique sempre atento
Um perigo terrestre
Todo brasileiro quando vai ao Canadá quer ver urso, foca, leão marinho, orca, e outros animais daquela região. Eu, agraciado com um filho que lá habita, fui no verão vê-lo. Sim, lá existe verão! Porém o conceito é outro: eles usam bermudas mas não dispensam um sapato esportivo ( vai que no caminho tem uma trilha, né?), um sorriso de alegria solar, e uma disposição invejável de aproveitar o dia. São incansáveis em fazer programa de índio: acampar no meio do mato, correr de urso, torcer o pé na trilha, surfar com roupa de astronauta e outras maluquices. Meu filho, carioca com pena de mim, convidou-me para um mergulho (SIC) nas águas cálidas de lá. Obviamente que, ao colocar o pé no mar, eu declinei do convite para preservar o pouco de masculinidade que ainda me resta. Ficamos apreciando a vista das montanhas nevadas do EUA lá ao longe e, de repente, não mais que de repente, um movimento diferente na linha do horizonte. Uma foca! Disse ele... Não, é maior... Um leão marinho! Eu fiquei louco de alegria e, ao mesmo tempo, de preocupação: a criatura vinha em direção à praia, lentamente. Leão marinho morde? Vai ao dentista? Tem hálito suportável? É amigável? E outros pensamentos de gente dos trópicos. A criatura avança, a curiosidade também, vem com um tubo pra fora d'água ( será que leão marinho faz pesca de snorquel?). Finalmente chegou na parte raza, um sujeito gordo ( tal qual um leão marinho) que nadava mais devagar que fila do INSS. Pronto, a criatura saiu da água, sem pressa, como se estivesse no caribe, e feliz. Pô! Cacete! Existe alguém que vá nadar, só de short, nesse mar gelado? Perguntei à meu filho . Resposta: esse cara é Russo! Então entendi o mau humor do Putin e voltei para tomar whisky em frente à lareira e prometer nunca mais querer ver animais do hemisfério norte.
Ver no escuro
Amar para sempre
É fácil
Atestar a verdade
Crer no amigo
Desejar
É difícil
O fácil é difícil
O edifício da vida
Não é fácil
O abstrato
Sempre quis o abstrato: o real é tão difícil... Aquilo que habita o imaginário, sem peso e amarras, flui. O que nunca podemos lá se pode, sonhos, desejos infundados, amores incomensuráveis, lá vivem, no imaginário. O tudo cabe no nada, a dor pode evaporar, o amargo vira doce e o amor dá em árvores floridas. Sim, o abstrato é o mais lindo lugar que há, é a fuga do prisioneiro, a loucura da virgem quase santa, a mão piedosa do carrasco. Cuide do seu pensamento abstrato e descuide da realidade dura para flutuar no mundo sem rumo e sentido que, sem você saber, pode te levar ao infinito.
O navio 🚢
O navio desatraca do cais lentamente
Dá tempo de cozinhar a saudade
Um lenço branco ao céu se lança
O vento testemunha o afastamento, vento
Um avião, ao longe, foge em segundos
O navio parece parar no mar
A saudade de quem fica, a de quem vai
Maresia, mistério, tudo se lança
No mar
Olhar
Olhar fulminante
Penetrando meu eu
Devorando pensamentos
Invadindo e destruindo
Olhar de felino
Esse teu
O encanto da flor
A flor encanta por ser frágil por natureza sendo forte em beleza
A flor sobrevive ao vento e chora na chuva, de desalento
A flor tem na sua mágica a certeza de emocionar
Em sua eterna paixão adora as carícias da mão
Do jardineiro amigo, amante e irmão
Espaços
O espaço para avançar é o dobro do retroceder
O espaço para descansar é menor
O espaço da duvidar é maior
O de amar é sempre o mais longo
O de sofrer é quase um palmo
O de ser feliz é, por definição, infinito
Foram pedaços quebrados e pisados no chão
Tanto sofrer que não cabia no coração
Só a cola do tempo vai sarar
O mal feito no vaso desfeito
Do meu coração
Pensamento
Quando o pensamento não voa ele rasteja
Quando para sufoca ou adormece
Ensiste em ficar martelando a mesma música
Ou torturando a incansável culpa
Do viver
Um frio
Um frio adentrou o coração
Sem definição nem aviso
Siberiano e tão invasivo
Lá se estabeleceu como dono
Foi trazendo mágoas retidas
Renascendo medos esquecidos
Matando minha paz
Um urso polar apareceu
Era você, com sorriso gélido
De braços abertos me chamando
Pra conhecer a sua solidão
E lá se vai mais um dia
Na estrada torta e na ventania do tempo
A mágica da vida se renova
Rios, matas e asfalto quente
Dissolvendo o dia
Quando o meu jeito torto de ser encontrou sua retidão absoluta
Um susto! Como ser tão certa no caminho tão torto?
Foi então que entendi o meu destino
E aí se deu a mais valorosa separação
A engenharia da amizade
A amizade começa na arquitetura do amor
Em curvas de Admiração
A fachada transparente
Sempre virada pro sol da confiança
A estrutura da amizade tem uma fundação sólida
O abraço
Os pilares são robustos feitos de
Atenção
As lajes são firmes, planas e plenas de confidências
O telhado metálico, forte, resiste às tempestades
A localização é privilegiada: teu coração
Os maiores tesouros não têm preço
Não estão à venda
Uma pedra escolhida na praia
A folha que dançante caiu
A caneta tinteiro do avô
O solitário da vovó
Talvez um amor impossível
Quem sabe o desejo de voar
Tesouros sem preço são melhores
O dinheiro não pode comprar
Valorize-os
Meu pai era um pavão (outra ave) e gostava de ser diferente, além de dar opiniões e aparecer. Como um engenheiro de grande valia ele foi trabalhar na construção de Brasília. Lá, em terras áridas do planalto central a ema (ave dessa crônica) era abundante, uma graciosa criatura que encantou o engenheiro; veio a ideia de levar um filhote de ema para o Rio de Janeiro e fazer sucesso com o novo animal de estimação. Belo dia ele adentrou sua casa com o filhote nas mãos e entregou aos cuidados de minha mãe, que o adotou com carinho e dedicação. A boa esposa ofereceu milho, papa de farinha, frutas diversas e nada... A pequena ave não comia nada. O tempo passava e a agonia de ver a morte anunciada se instalou. Meu pai foi consultar um veterinário para saber o motivo da inapetência do animal, o médico disse: filhote de ema só come mosca! Ora, por que? Perguntou meu pai. Resposta: a ave mãe choca seus ovos e, na proximidade da eclosão dos mesmos, ela fura com seu bico um deles. Pronto, quando os pequeninos nascem o "ovo irmão" já está podre e as moscas são alvo fácil para alimentar os habitantes do ninho.
A natureza é criativa e, por vezes, cruel; assim papai viu seu sonho desabar no fracasso quando chegou com a nova receita alimentar em casa: a ema morreu!
Roberto Solano
O arco
Devorador de sonhos
Ele pouco se alimenta, magro
Ele devora sonhos, visionário
Ele não se atenta à realidade
Ele prefere voar em pensamentos
A impossibilidade não existe
Só a imaginação traz a satisfação
Só a neve do deserto escaldante
Só um boi voando interessa
No mundo, sem sonho, nada presta
Vovô Euler
Leonhard Paul Euler, vovô Euler, ou Leozinho para os íntimos, avô da temível Flambagem, prima de Compressão, Tração e Torção. Vovô Euler era pacato, gentil e estudioso, um dia ele escorregou e viu sua perna esquerda, fina como um graveto, flambar. Uma experiência sensorial de muita dor que levou o vovô a ficar de cama um bom tempo... Vovô Euler não era qualquer um e, após várias anotações, descobriu a fórmula matemática da flambagem olhando para sua mulher gorda e baixinha pensando "essa aí nunca vai flambar", vovó nunca soube disso, se soubesse o vovô teria as duas pernas quebradas por cisalhamento! Vovô Euler cuidou da netinha flambagem com muito carinho, sempre orientando os engenheiros do perigo que é conviver com essa menina trelosa... Vovô Euler era um arretado, devemos muito à ele, já a netinha...
Uma prima chamada Flambagem
O susto
No meio da noite o sono saiu, batendo a porta
O susto chegou como um ladrão
Roubou minha paz, descaradamente
Agora, sozinho, na cama de castigo
Acordei no escuro da alma
O pensamento escorregando, quiabo, diabo
E o coração já não pulsa, pula dentro
A boca é o portão de saída, solução
O susto chegou tão rápido e certeiro
Pra fazer o que mais gosta e sabe fazer
Assustar
Massagista de ego
Eu sou massagista de ego
Levanto sua moral
Melhoro sua alta estima
Trago energia e vitalidade
Sou complicado e difícil
Mas
Você nunca vai se cansar de mim!
Meu nome é Dinheiro
"Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço"
Mentira! Os apaixonados ocupam.
"A toda ação há uma reação igual no sentido contrário"
Verdade! Todo amor traz a dor
"Um corpo permanece em seu estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme, a menos que uma força externa atue sobre ele".
Verdade! Um corpo apaixonado sempre sai da rota.
"Os planetas se movem em torno do Sol em órbitas elípticas".
Verdade! Só quem ama de verdade sabe o que é uma órbita elíptica.
Agora a lei maior: "
dois corpos com massa se atraem mutuamente por uma força que é diretamente proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre seus centros de massa".
Troque massa por amor e apaixone-se.
Sem motivo
O céu azul de Maio vem adentrar minha retina
Sem motivo
O ar puro da manhã invade os pulmões
Sem motivo
Um calor vindo do coração emerge
Sem motivo
Eu fico feliz, como uma criança
Sem motivo
E descubro a felicidade mais tola
Aquela que iguala a humanidade
E faz a pessoa sorrir
Sem motivo
Sou eu
Aquele coqueiro torto dançando o frevo dos ventos
Sou eu
A pedra lascada e escondida na montanha nevada
Sou eu
Os dedos retorcidos da velha rendeira do nordeste
Sou eu
O motor quebrado no meio do deserto quente
Sou eu
O diamante maior da terra, ainda enterrado
Sou eu
A química do olhar
A química do olhar esbarrou na física do corpo
O encontro se deu, matematicamente, perfeito
Em translação e rotação a união se fez
Depois, na imobilidade, Newton trouxe a verdade:
Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço
No teu coração
Roberto Solano Novaes
Anjos existem
Anjos existem, disfarçados de gente pra servir a gente
Uns doidos, outros atrapalhados, pobres em maioria
Preste atenção!
Aquele pedinte do sinal pode ser um
O soldado da esquina, talvez
O enfermeiro, sim, eles adoram ser...
Como reconhecer um anjo?
Tens que ver a alma do anjo
Anjo tem alma?
Sim, dentro dos olhos
Como ver a alma?
É preciso ter calma
Como ter calma?
É preciso ter alma
Onde está minha alma?
Pergunte ao teu anjo da guarda
Engenheiro de palavras
O engenheiro de palavras trabalha duro como a brita
Argamassa seu pensamentos
Concreta ideias e constrói frases
No prumo correto da gramática, levanta
Pilares, vigas, lajes e paredes no papel
Por vezes faz poesias estruturais
É, sobretudo, um engenheiro incansável
Faz das palavras frases, contos e romances
Um engenheiro nato, construindo cultura, com lápis e papel
Pontes
Lágrima seca
Derramo minha lágrima seca
Nas mãos sujas do mendigo
Ao ver a freira, escrava de Cristo
Na criança que chora de fome
Sobre o chão seco do sertão
Uma lágrima seca e esturricada
Ao ver o destino torto do país
De tanto chorar para o amanhã melhorar
Minha lágrima seca não vai, engulo
Ela representa a morte da alma
O absurdo da falta de amor
A vitória do desamor
O que fiz na vida?
O que fiz na vida? Pergunta o velho
O que vou fazer na vida? Pergunta o jovem
O que vou fazer da minha vida? Pergunta o desesperado
O que sei fazer na vida? O desempregado pensa
O que mais fazer com minha vida? O deprimido
A resposta não vem
A pergunta ecoa
A resposta só vem
Quando a verdade destoa
Arrependimentos
Arrependimentos, pra que tê-los?
Não são remédios
Não curam
A dor
Arrependimentos são panos sujos
Pra limpar o chão da saudade
Não servem
Pra nada
Arrependimentos buscando o perdão
Na esperança do esquecimento
Do amor
Já perdido
Arrependimentos, pra que tê-los?
Melhor esquecê-los
Olhar pra dentro
Olhar pra dentro é o mais difícil
Olhar pra fora é quase natural
Olhar pra dentro é forte, descomunal
Ver seus defeitos, e pecados
Sujar seus olhos com fracassos
Desalinhar a vista com desilusões
Olhar pra dentro é tão difícil...
Olhar delicado
Olhar delicado vê detalhes na perfeição
Na imperfeição ele se diverte mais
O olhar delicado vê a alma da flor
Pode perceber o respirar da árvore
A folha cair, sem rota, e pousar em outra
O olhar delicado sabe do feio o belo
Do belo a certeza da imperfeição escondida
O olhar delicado habita nas avós
Mora no coração das mães cuidadosas
Não perde tempo com os apaixonados
O olhar delicado é crítico sem falar
É puro como um pecado escondido
É tão delicado que desaparece em um segundo.
Como será?
Como será o silêncio do surdo?
A luz da manhã para o cego?
A compaixão do carrasco?
A fuga desesperada do paraplégico?
O amor impossível do demônio?
E te pergunto: como será o meu perdão?
Aço
Aço, prefiro ser chamado de vergalhão
Forte eu vou pra obra, lá me cortam e dobram
Continuo forte e vou pras mãos do armador
Minha casa vai ser pilar, viga e laje
Meu destino é ser enterrado
Concreto, e lá dentro fico
Depois é trabalho, me puxam me comprimem
Sofro muito e ninguém vê
Ali, na estrutura, invisível, padecendo
Sou aço, sou forte
Por favor
Me chamem de vergalhão
Capacidade de abstração
Fazer musculação é um treinamento mental: você tem que abstrair a sua mente para estar dentro de uma academia. Primeiro ponto: ninguém conversa com ninguém; segundo: a sua mente não pode estar lá, é horrível estar lá, tudo feio, os aparelhos parecem alienígenas de aço! Eu tenho medo deles avançarem... As pessoas ou são musculosas demais ou velhos demais, as mulheres fortes demais, os professores sorridentes demais, tudo demais... Só resta a abstração mental! Tipo uma ioga de atenção, atenção pra não se machucar! Triste, mas é assim mesmo, musculação e abstração, você precisa aprender ou vai padecer.
Alma pesada
A alma pesada no corpo leve segue a estrada da vida em busca do nada. O nada, invisível, insensível, a encontra na rua da amargura. A alma pesada suspira o nada respira esse ar contaminado. Em um momento o céu se ilumina com o Sol da felicidade! A alma fica leve e flutuando, vai percorrer o mundo dos tristes para encontrar outra alma pesada em corpo leve, para ensinar que até o nada pode ser tudo quanto existe amor.
Alimentando a paciência
A paciência não tem fome, chata pra comer
Fica magra e irritada, debilitada
Muitos dizem:"você está sem paciência"
Pudera, ela, fraquinha, não sai de casa...
Acordo e levo ela pra tomar café
A bichinha mal come um biscoito
No almoço ela se esconde
No jantar eu tomo um chá, de paciência
Assim vou levando a minha paciência
Magra e debilitada, não conto com ela
Portanto
Não me peça paciência, ela praticamente, não existe
Coleção de defeitos
Já colecionei bolas de gude, figurinhas
Já colecionei canetas e escritos
Hoje eu coleciono defeitos
Bem guardados e sempre limpos
Tenho até orgulho de conhecê-los
São feios, outros aceitáveis, brilham
Meus defeitos são meus, suficientes!
Quando os vejo eu me lembro deles
É, atualmente, o que me salva
Sabedor dos defeitos os guardo
No fundo da gaveta, só pra mim
Só pra me salvar do amanhã
O grande dilema
Amar o outro e compreender o outro, qual a diferença? Amar é ato impensado, compreender é racional. Amar sem compreender não funciona, compreender sem amar também não; amar e compreender são ações complementares e das mais difíceis da vida. Como fazer funcionar o "amor completo"? Resposta: aceitar o lado B, a face errada, o torto de você próprio e da pessoa amada. Difícil? Dificílimo! Aceitar os erros e tentar corrigí-los (ou não) e adoçá-los com amor. Viver é uma arte, conviver um desafio, viver e amar é a perfeição! Atenção: a perfeição não existe! Tente, tente sempre e siga em frente no equilíbrio entre o amor incondicional e a dura razão imparcial.
Mulher, você ama demais
Mulher, você ama demais
Esse é o seu pecado
Amor abundante, deslumbrante
Amor demais pode matar
Amor demais pode marcar
Amor demais vai transformar
Sim, meu coração vagabundo
A minha incapacidade de amar
A minha cegueira
Perdoa-me
Perdidamente, perdoa-me
Meu pecado é não saber amar
Mulher, você ama demais
Mãe maior
Mês de Maria, mãe maior
Mês de Maria, mãe de todos
Mês de Maria, mãe de Deus
Mês de Maio
Maio, mês maior
Maio, mês dela
Maio, mês melhor
Maria, a compadecida
Maria, das graças
Maria, mãe das mães
Rogai por nós, pecadores
Roberto Solano
A expectativa
A expectativa é a filha mais nova da esperança, a esperança é uma mulher parideira demais, de seu ventre saem idéias, sonhos loucos e até alguma realidade (rara). A expectativa nasceu há pouco e vive olhando tudo, curiosa, vai alimentando a alma de quem convive com ela. Uns, mais otimistas, adoram ela; outros ao vê-la a ignora, por medo ou preguiça. Pra que ter expectativa? A vida fica mais leve, muito mais fácil, sem ela. Esperar o que? A morte? Essa já está certa, sem expectativa vai acontecer. Chato viver com expectativas ao seu redor, serás um sonhador, um futurista (futuro não existe). Xô expectativa! A regra é clara: plantar pra colher e não para imaginar a maior safra de todos os tempos! Aceitar a verdade e viver, o mais simples possível, sem expectativa, é melhor.
Poeta de virgens
Não sou poeta de virgens
Por tudo que fiz, sou poeta de meretriz
Por isso o amor desamado me faz feliz
Por isso sei dizer o "não" da atriz
Poeta de virgens tem outro sentimento
Da flor sentir o desabrochar, no momento
Das meninas o olhar mais puro, sentimento
Da verdade da vida só ter o lamento
Então sou poeta de meretriz
Vivo a vida assim: sempre por um triz
E você, me lê pra ser feliz?
Sinto te dizer: sou poeta de meretriz
O poema sem palavras é lúdico e lunático, ele funciona em ondas eletromagnéticas de amor puro, como um sorriso perdido no ar ou um aceno de um trem imaginário... O poema sem palavras é uma ilha perdida no mar das fantasias e lá mora, escondido, Neruda! Não conte isso pra ninguém, viu?